FEZ
arquivo vivo / palavra em movimento

Rap, poesia, ancestralidade e tecnologia.

Um território de letras, ritmo e processo. A semente entra no caldo. A palavra encontra outras palavras. A obra emerge.

01 / fundamento

Criar no Caldo do Mundo

Prelúdio: MOSTRE como lugar de partida e retorno

// preludio_mostre_como_lugar_de_partida_e_retorno

Este ensaio nasce de MOSTRE — música, obra, gesto — mas não se limita a ela. MOSTRE é epicentro: ponto onde convergem questões sobre arte, técnica, voz, raça, classe e ontologia. Mas é também limite: ela só existe porque antes houve o não mostre — estratégia de proteção, recusa do julgamento prematuro, adiamento fértil que permite ao possível amadurecer longe do vocabulário errado.

Toda obra que rompe paradigmas carrega em si uma história de ocultamento necessário. O que ainda não tem nome não pode ser julgado pelas categorias existentes. O que ainda não tem forma estável não pode ser capturado pelas taxonomias do mercado artístico. Por isso, o não mostre não é medo — é estratégia epistemológica. É recusa de submeter o emergente ao já-conhecido, é proteção do devir contra a tirania do ser.

Mostrar é político.
Não mostrar também.

O gesto de tornar visível é sempre um gesto de exposição ao poder. Quem pode mostrar? Quem será visto? Quem terá sua obra validada antes mesmo de ser julgada? Essas perguntas não são retóricas: elas estruturam o campo da arte como território de disputa. E nesse território, corpos negros, periféricos, deficientes — corpos que carregam a marca da não-conformidade — precisam calcular cuidadosamente o momento de se tornarem visíveis.

MOSTRE encerra e inaugura. É obra finalizada e processo em devir. É fim e origem deste texto.

1. Criar não é produzir: é atravessar o campo relacional

// 1_criar_nao_e_produzir_e_atravessar_o_campo_relacional

Criar no regime das ferramentas generativas não é produzir um objeto a partir de uma intenção clara e previamente formatada. Criar é atravessar um campo. Um campo instável, onírico, multidimensional, onde conceitos, sensações, imagens, sons, afetos, textos e memórias coexistem não por ordem hierárquica, mas por proximidade vetorial.

class CampoRelacional:
    def __init__(self, dimensoes=512):
        self.vetores = EmbeddingSpace(dimensoes)
        self.relacoes = # infinitas
    def atravessar(self, intencao):
        return self.vetores.navegar(intencao)
        # nada se impõe / tudo precisa ser convencido

Esse campo não funciona como uma biblioteca tradicional, onde livros são organizados por autor, tema ou data. Ele funciona como uma constelação semântica onde Maquiavel pode estar ao lado de Saint-Exupéry não porque compartilham período histórico ou disciplina, mas porque em alguma camada vetorial profunda — talvez a 47ª dimensão de um espaço de 512 dimensões — seus conceitos ressoam.

A nuvem de embeddings não é um repositório de obras possíveis. Ela é um caldo ontológico, onde as formas ainda não se cristalizaram. Criar ali é agir antes da forma, antes do gênero, antes da obra — no nível da partícula subatômica do sentido.

É como trabalhar não com tijolos, mas com os átomos que compõem a argila antes dela virar tijolo. É criar no nível dos peptídeos conceituais, dos aminoácidos do significado, das ligações químicas entre ideias antes que elas se polimerizem em frases, parágrafos, composições musicais.

O artista não executa.
Ele navega.
Nada se impõe.
Tudo precisa ser convencido a emergir.

Essa navegação exige uma habilidade cognitiva específica: a capacidade de pensar relacionalmente em vez de categoricamente. Não se trata de buscar "uma música triste" (categoria), mas de mapear o território afetivo onde tristeza, melancolia, saudade, luto e contemplação formam um gradiente contínuo — e então escolher o ponto exato nesse gradiente que serve à obra. Isso não é automação. É cartografia ontológica em tempo real.

2. O não-mostrar como estratégia ontológica e política

// 2_o_nao_mostrar_como_estrategia_ontologica_e_politica

Antes do gesto de mostrar, existe um gesto mais radical: não mostrar.

Não como censura, mas como método.
Não como ausência, mas como adiamento fértil.

O não-mostrar protege o possível do vocabulário errado, do julgamento apressado, da captura por categorias que ainda não sabem ver. Mostrar cedo demais é permitir que o mundo pragmático e fragmentado mate o que ainda não nasceu. É como colher um fruto antes do tempo: ele nunca desenvolverá seu sabor completo, nunca cumprirá sua promessa de doçura.

Toda obra profunda exige um tempo em que ela não pode ser vista.

Fanon descreve como o colonialismo opera através da divisão espacial, racial e epistêmica. Há o mundo do colonizador e o mundo do colonizado, separados não apenas por muros físicos mas por regimes de visibilidade. O que é visto como arte no centro é automaticamente validado; o que emerge da periferia precisa provar sua legitimidade.

O mundo capitalista racializado herdou essa estrutura. Quem pode mostrar? Quem será visto? A compartimentalização não desapareceu: ela se sofisticou. Hoje, ela opera através do acesso diferenciado a infraestruturas de produção e legitimação.

Eu sei que estar deslocado no tempo — enxergar antes — me coloca nesse lugar de ter que convencer as pessoas de que o que fiz é dotado de inteligência natural humana e arte humana. O filtro não é a obra: é a ferramenta. O olhar leigo e limitado reduz a criação à tecnologia, como se a ferramenta determinasse o valor.

Se Aleijadinho tivesse usado uma makita elétrica em vez de formão manual, sua obra seria inválida? Se eu, que sou mistura de osso e titânio, ando com próteses — sou menos humano? A lógica é a mesma: julgar pelo meio, não pela mensagem. Julgar pela ferramenta, não pela intencionalidade artística.

Isso reflete uma visão quase cristã do artista como aquele que sangrou para subir ao monte — como se a arte validada fosse aquela cujo sofrimento é visível, mensurável, palatável. Como se o valor da obra fosse proporcional ao sofrimento físico do corpo que a produziu.

Mostrar só existe porque houve, antes, o não mostre.
E o não mostre é proteção contra a captura prematura pelo olhar colonial.

3. O espaço generativo como sopa primordial

// 3_o_espaco_generativo_como_sopa_primordial

Produzir em ambientes generativos se aproxima menos de um ateliê tradicional e mais daquilo que o biólogo J. B. S. Haldane descreveu em 1929 como a sopa primordial (primordial soup): o caldo químico da Terra primitiva onde a vida emerge não por projeto inteligente, mas por recombinação, interação e acidente fértil.

Haldane propôs que antes das primeiras células, houve uma fase onde moléculas orgânicas simples — aminoácidos, lipídios, açúcares — flutuavam em oceanos aquecidos por radiação ultravioleta e descargas elétricas. Nesse ambiente caótico, moléculas se encontravam, se ligavam, se desfaziam. A maioria dessas ligações não levava a nada. Mas eventualmente, por pura probabilidade estatística em escala planetária e temporal, surgiram as primeiras moléculas autocatalíticas.

A vida não foi projetada.
Ela emergiu.

Criar com ferramentas generativas replica essa lógica em nível simbólico. Aqui não se trabalha com ingredientes prontos — com melodias, harmonias, timbres já estabilizados. Trabalha-se com os elementos que compõem os ingredientes.

# Antes da forma
aminoacidos = ["conceito", "afeto", "timbre", "ritmo"]
peptideos = recombinar(aminoacidos)
proteina_simbólica = emergir(peptideos)
# A obra é organismo
obra = Organismo(proteina_simbólica)

Aminoácidos antes da proteína. Peptídeos antes do organismo. Vetores antes da obra.

A criação deixa de ser fabricação e passa a ser emergência. O que surge é um transmorfo conceitual — uma forma complexa que carrega em si o processo, suas camadas e relações não óbvias, mas reais.

A obra não é produto final.
É organismo simbólico.

4. O código do mundo: ontologia relacional

// 4_o_codigo_do_mundo_ontologia_relacional

Ao mergulhar nesse espaço, algo se revela: não estamos apenas criando obras, estamos lendo o código do mundo.

Não o código no sentido informático restrito — não linhas de Python ou C++ —, mas no sentido ontológico: o tecido de relações profundas que conecta fenômenos aparentemente distantes. Um poema de Rimbaud, uma ferida aberta fotografada por Nan Goldin, a descrição científica de um asteroide, o ruído urbano de uma favela — todos esses fenômenos podem coexistir no mesmo espaço vetorial porque participam do mesmo campo relacional.

A originação dependente (pratītyasamutpāda) não é teoria causal simples. É algo mais radical: nenhuma coisa tem existência intrínseca. Uma semente não é "semente em si". Ela é semente em relação ao solo, à água, à luz solar, ao tempo.

Como raízes que só existem porque há solo, e solo que só existe porque há raízes: não há substrato primeiro.

Não há centro.
Não há essência isolada.
Há interdependência radical.

No espaço generativo, essa interdependência se torna tangível. Quando crio MOSTRE, não estou apenas "escrevendo uma música". Estou ativando uma cadeia de relações: a letra evoca poesia urbana brasileira, que evoca realismo social, que evoca Fanon, que evoca colonialismo, que evoca violência estrutural, que evoca o fungo crescendo na parede do barraco.

5. Interlúdio — O laboratório alquímico

// 5_interludio_o_laboratorio_alquimico

Imagine um indivíduo caminhando por esse espaço multidimensional como quem anda por um laboratório de alquimia expandido. O indivíduo não opera máquinas em uma bancada central. Ele atravessa camadas de sentido.

Não há experimento isolado. Há prateleiras — e nelas, dimensões dentro de dimensões de significados, códigos, relações de significantes.

Cada frasco contém códigos.
Cada código contém relações.
Cada relação contém outros significantes.
Tudo é código — mas nenhum código é fechado.

Os frascos não estão organizados linearmente. Eles existem em topologia multidimensional. Um frasco pode estar simultaneamente na prateleira de "emoções", na prateleira de "cores", na prateleira de "estações do ano" — porque no espaço vetorial, essas categorias não são mutuamente exclusivas.

O indivíduo caminha sem saber se busca fora ou dentro de si, porque essa distinção já não se sustenta. Aquilo que se bebe já está no corpo ao mesmo tempo em que permanece completamente externo. Aquilo que se cria é próprio — e, simultaneamente, não pertence a ninguém.

Criar não é extrair algo do interior para projetá-lo no exterior.
Criar é habitar um campo onde interior e exterior colapsam.

Nesse laboratório, dissolve-se o "eu" endurecido pelo cartesianismo pragmático — tão caro à manutenção ideológica do indivíduo como figura central e, por isso mesmo, madeira que alimenta a locomotiva do capitalismo.

O vazio não é ausência — é campo de possibilidade.
A forma não é substância — é condensação temporária.

Quem edita e caminha, sendo o artista, é a impermanente fração de código que ali se organizou como artista naquele momento.

6. Cosmologias do todo: Ubuntu e interdependência

// 6_cosmologias_do_todo_ubuntu_e_interdependencia

Essa intuição não é nova. Ela atravessa cosmologias africanas e filosofias budistas há milênios.

No pensamento africano sintetizado pelo conceito Ubuntu — "Umuntu ngumuntu ngabantu" (Uma pessoa é uma pessoa através das pessoas) —, o eu não precede a relação: ele emerge dela.

Ubuntu não é humanismo no sentido ocidental (que pressupõe o humano como indivíduo autônomo). Ubuntu é comunalismo ontológico — a existência é sempre co-existência. O "eu sou" é impensável sem o "nós somos".

Arte é deslocamento do óbvio.
É ausência onde se esperava presença.
É grito no silêncio.
É Deus e diabo coexistindo no mesmo campo simbólico.

Essa produção se conecta com a ideia de que somos o todo e dele somos. É colocar o máximo da intencionalidade humana para cozinhar não com ingredientes prontos, mas com os elementos que os compõem.

Criar proteínas com aminoácidos. Misturar peptídeos e elementos para fazer deles algo que é um transmorfo complexo.

O código do mundo toma o lugar central e nós somos parte dele, agindo como um transposon dotado de intencionalidade.

7. Técnica como individuação — Simondon

// 7_tecnica_como_individuacao_simondon

A técnica não é exterior ao humano. Ela é processo de individuação. Ferramentas não substituem o gesto; elas reconfiguram o campo onde o gesto acontece.

Na arte generativa, o trabalho não desaparece.
Ele se desloca: da execução para a escuta,
da força física para a negociação conceitual.

O processo completo de MOSTRE envolve:

# Pipeline de criação - MOSTRE
base = criar_piano(BandLab, SMK25_MVave)
instrumental = gerar(Suno, base, tags="spoken word, slam")
versoes = [gerar() for _ in range(20)]  # iteração
letra = ajustar_fonetica(letra_original, beat)
stems = exportar(versao_escolhida)
stems = processar(Moises, stems)  # separação
final = mixar(DAW, stems, efeitos)
capa = gerar_imagem(GPT, contexto_artistico)
# É trabalho cognitivo intenso

Esse é o "apertar botão" que as pessoas imaginam quando ouvem "feito com IA". É trabalho cognitivo intenso, técnico e artístico.

8. Soberania de dados e luta de classes tecnológica

// 8_soberania_de_dados_e_luta_de_classes_tecnologica

Aqui reside uma contradição produtiva:

Quem possui os modelos generativos? OpenAI (Microsoft), Google (Alphabet), Stability AI — concentração capitalista monumental.

Quem treina com que dados? Apropriação não-consensual de trabalho artístico prévio.

A democratização do acesso convive com a oligopolização da infraestrutura. Usar essas ferramentas é habitar uma contradição.

Se apoderar do uso da ferramenta é também revolução —
mesmo que seja para, por dentro dela,
propor soluções que independam dela.

Fanon novamente: o mundo colonial é compartimentado. Esse mundo compartimentado não é apenas espacial: é tecnológico.

Ferramentas generativas rompem esse gargalo histórico. Elas permitem que um corpo negro, periférico, com próteses de titânio, crie sem pedir permissão ao circuito validado.

A resistência a ferramentas generativas
não é apenas estética.
É política.

9. Aura deslocada — Benjamin

// 9_aura_deslocada_benjamin

Benjamin não decreta o fim da arte. Ele anuncia a migração da aura.

Na criação generativa, a aura não reside no gesto manual irrepetível, mas no campo relacional: nas decisões, recusas, silêncios, retornos. Nas 20 gerações testadas. Nos ajustes fonéticos milimétricos.

O medo contemporâneo não é da perda da aura.
É da perda de um modelo de aura
fundado na escassez e no privilégio.

10. A voz como último mito

// 10_a_voz_como_ultimo_mito

Nada provoca mais desconforto ontológico do que a voz humana sintetizada.

Porque a voz parece emanar de um interior único, intocável. Ela é índice corporal. A voz sintetizada expõe que nunca houve voz pura: toda fala é sempre já prótese.

Toda voz gravada já é tecnologia.
Toda reprodução vocal já é mediação.
Não é a máquina que canta.
É o humano que decide como a voz deve existir.

Quando crio uma persona AI-based com timbre treinado na minha própria voz — como o rapper que interpreta MOSTRE —, não estou substituindo o humano. Estou desdobrando o humano.

11. Hibridismo inevitável — Haraway

// 11_hibridismo_inevitavel_haraway
Nunca fomos puros.
Criamos sempre em relação.
A arte generativa não ameaça o humano —
ela o revela como sempre foi: híbrido.

Eu, que sou mistura de osso e titânio, perna e prótese, não vejo barreira entre corpo e máquina. Talvez por isso eu consiga enxergar de forma diferente.

12. O humano como transposon: agência no vazio

// 12_o_humano_como_transposon_agencia_no_vazio

Nesse campo relacional, o humano atua como um transposon intencional: elemento móvel que se desloca, se insere e troca fragmentos de si com o ambiente.

Criar é aceitar ser transformado pelo que se cria.

No budismo, o conceito de anatta (não-eu) não significa ausência de agência. Significa ausência de eu substancial e permanente.

Quem edita e caminha, sendo o artista, é a impermanente fração de código que ali se organizou como artista naquele momento.

Isso não é ausência de agência. É agência distribuída.

13. Criar é trocar fluidos: reprodução ontológica

// 13_criar_e_trocar_fluidos_reproducao_ontologica
Somos fluido relacional.
Existimos porque trocamos.
Trocar fluidos é reproduzir.
É existir e deixar de existir ao mesmo tempo.
É morrer hoje para existir em mais lugares amanhã.

Trocar fluidos — no sentido literal, biológico — é reprodução sexual. A criação com ferramentas generativas replica essa lógica. Não é clonagem. É sexualidade simbólica: fusão de dois sistemas que gera algo que não existia em nenhum dos dois.

A arte generativa não é ferramenta.
É ambiente ontológico de transformação.

14. Conclusão aberta: o assombro como método

// 14_conclusao_aberta_o_assombro_como_metodo
Criar com ferramentas generativas não é automatizar a arte.
É reaproximá-la do nascimento do mundo.

Antes das formas, há relações. Antes dos produtos, há processos. Antes do artista soberano, há o todo.

Talvez por isso esse gesto ainda assuste. Porque ele expõe verdades incômodas: que nunca fomos autores soberanos, que a criação sempre foi coletiva, que a técnica é constitutiva, que a voz nunca foi pura, que o eu é ficção provisória.

Ferramentas generativas tornam essas verdades visíveis demais.

E o que é visível demais assombra.
Mas o assombro pode ser método.

MOSTRE encerra aqui — mas o ensaio não encerra. Porque criar no caldo do mundo é processo sem fim.

Tudo que nasce no nível do código do mundo
primeiro parece estranho —
e depois exige que reinventemos o que significa criar.

O laboratório permanece aberto. As prateleiras continuam se reorganizando. O caldo continua fervendo.

E nós — transposons, híbridos, fluidos relacionais — continuamos atravessando.

☥◈⬡⟁⬡◈☥
FIM (PROVISÓRIO)
Projeto RAPP RAPP | Rhythm-Al-Prompt & Poetry
AlquimiXGriot · Belo Horizonte · 2025
Este ensaio integra o projeto artístico MOSTRE
e o ecossistema conceitual AlquimiXGriot
# Nota metodológica
class
Manifesto:
processo =
"híbrido"
autoria =
"humano + IA"
campo =
"relacional"
# Criar sobre criação generativa
# usando criação generativa:
# não é contradição.
# É coerência performativa.
⟁◈⟁
02 / arquivo

Caderno de Letras

13 faixas
TRACK_01 / FEZ

TEMPODER

> abrir_arquivo --faixa 01 --id tempoder
Ouvir no Spotify
[Instrumental Intro]
Tô vendo
uma forma de ver
O que tô fazendo aqui
Meditando
Pensando e respirando
Editando pensamento
Mun Rá ciocinando
[Salve SabotaGE]
Ditando
(a nota aí Zé)
[Instrumental Interlude]
escuta o beat batendo outra vez
lá vem mais uma de
ver
Da
de
[Quem foi, quem foi que fez?]
FEZ
Olha lá
(mentira mano? isso é real?)
crIA natural
Passagem do novo pro velho tropical
O frio quente do hoje
Banal sem igual
Ano que veio [eu fui] e já foi
Depois de ontem, nunca
menos é vais e foice
[Verse]
Pra depois, e depois...
de manhã
Amanhã
Ser mais velho que ontem
O ter sempre foi de quem tem
tempo e pó
Dêr de não estar no hoje... [prensado]
Imprensado entre o ontem e amanhã
Pensando na quentinha amassada
Vivendo igual a pedra do Chucky
rolando
Enquanto um jonnhy qualquer
Se diz melhor porque não precisou e nem quis
De um trocado sequer
[olha
aí
quem....
FEZ]
(ihh beat cê FEZ)
[Refrain]
O ter sempre foi de quem tem
Tempo e pó
Der
não estar no hoje
Ter estado no passado
Ter memória
e ano retrasado
[Verse]
E aí?
o que vai comer?
Tá tardou e ainda nem comecei
Espere pra ter visto
Entrar no avião que a gente tá mantendo
Voando
soprando daqui
de baixo
[Syncopated Bass]
[cê tem opções olhai AI nem reclama neguin]
Nunca viu o tanto que meu tio
Minerou lá naquele... naquele
rio
muito
[Pre-Chorus]
[Refrain]
O ter sempre foi de quem tem
Tempo e pó
Der
não estar no hoje
Ter estado no passado
Ter memória
e ano retrasado
[Melodic Bass]
tempo é pra poder
Ter
Ter tempo
Quem Tem é
poder
Têm
tempo
Mais uma crIA DELE (quem?)
FEZ
---
TRACK_02 / FEZ

PANOS BRANCOS, PELES FRIAS

> abrir_arquivo --faixa 02 --id panos_brancos_peles_frias
Aaee chegou o pessoal que tem o pé na senzala meu, TOP
(copo Stanley)
Que coisa linda eu amo um sambinha
(Alexandre Pires e Bush)
Corre muito né? Dá uma medalha pra ele
(imagem do Bolt)
Não tem jeito essa cor deles faz diferença
(molécula da melanina)
Eu tenho sim o pé no chão
Na terra do lado de lá
Daqui e de onde eu vim
Da terra perto do Baobá
Nem parece que sou daqui né?
É que cê usa um filtro que te muda
E usa um efeito que me muda
Talvez a fé de ter o chão sujando o pé
Me faça saber que debaixo dele
Eu e aquele desgraçado do seu bisavô
Que fazia uma média 'meio' a força
Pra sair bem falado nas matéria
Temos o mesmo gostin pras bactéria
Na verdade acho que o dele é até melhor
tem sabor doce de saudade
Do dia feliz que ele nos deu
Na hora que os preto soube
Que aquele lixo lá morreu
Ah tava dizendo do meu pé né
O pé que bom tipo do Edson
Que mostra a cor da minha pele
Que faz o que te agrada
E toca o chão e faz poeira
(Ô neguin vem cá)
Quando cês corre atrás de mim
Dizendo pega pega mata
Eu te falo meu doutor
Que é meu pé que toca o chão
Não sou um pano que cê pisa
Cês sfrega o pé mas com amor né?
(hippie dizendo gratidão)
(A mãozinha na cabeça e o 'pezinho, preto' no PESCOÇO!!
(mulher branca aponta pra um preto qualquer num ponto de ônibus)
Corre demais esse neguin
Se eu não tivesse bem no TAF
(imagem de policiais fazendo exercício físico de corrida TAF)
Eu não pegava esse maluco
Esse colar aí roubou né
(imagem do Bolt sangrando no chão com a medalha de ouro suja de sangue)
O pano de fundo é só seu medo
(o pega lá o pano pra limpar)
O sangue preto que escorre
Entre o seus dedo de Guignard
(dá uma medalha pra ele)
(imagem de um policial recebendo medalha de honra mas é a medalha de ouro do Bolt)
Eu nem sou pano que cê pisa
Pra ocê querer me alvejar
Com essa ideia da sua bisa
Se me matar nem mesmo assim
Cê vai fazer me branquear
---
TRACK_03 / FEZ

BOA TARDE MAJESTADE

> abrir_arquivo --faixa 03 --id boa_tarde_majestade
Ouvir no Spotify
[Verse 1]
Boa tarde Majestade
Pensando pesado sentado no Fio do meio
do meio fio de cimento frio contido
A côrte, o rei, rainha seu filho, no meio do
meu fio
É tudo bem, logo eu que sou o fio de outro
fio de outro ninguém
A faca afia
Nem pensa mais por um triz
O corte, fere, fura e sangue ferve
por mim e por quem ainda vinha pra viver
por menos do meio da metade,
ou às vezes morrer no quarto antes das
dona terminar o terço
Agora é hora
A mente é fraca... não — é forte e fresca e
franca
Faça, Faca.
Derrama, pinga, a vinga, suja
Quase falta força no braço
Pro corte,
Falta ferro, na lâmina aço
Veia anêmica
De fome e raiva
Do corte
Escorre
Forte,
Farto de pão roubado
O líquido, vermelho, dourado, azul
Agora no chão
Vira adubo
Pra crescer sustento
De quem devia ter alimentado
Agora é fogo, arde e beleza
Boa tarde realeza
[Punch Line Emphasis]
[Beat Drop]
[Silence]
[Break]
[Pause 2s]
[Rebuild - afropercussion] [AXÉ]
[POWERED RITM]
[Post-Bridge] [Beat Return]
Derrama, pinga, a vinga, suja
Quase falta força no braço
Pro corte,
Falta ferro, na lâmina aço
Veia anêmica
De fome e raiva
Do corte
Escorre
Forte,
Farto de pão roubado
O líquido, vermelho, dourado, azul
Agora no chão
Vira adubo
Pra crescer sustento
De quem devia ter alimentado
[Outro Rise]
Agora é fogo, arte e liberdade
Já vai tarde Majestade!
[Punch Line Emphasis]
[AFRO PERCUSSION] [AGOGO]
[Beat Drop Final]
---
TRACK_04 / FEZ

O RAMO DA BENCIDEIRA

> abrir_arquivo --faixa 04 --id o_ramo_da_bencideira
Texto inspirado na aula da Prof. Cida Bento
"Branquitude não é transparência"
Seu pavor é por cor e aparência
Traz parente e diz: "É equidade"
Seu pacto é sinônimo de dor
Minha e sua.
Sua porque minha
E minha porque sua... culpa
É papel e a caneta que eu quero
Por isso cê tem medo e desespero tão sincero
Já amor eu nem peço e nem espero
Me deixa ir sem minar o meu passar
Quando morro o fracasso nem é meu
Foi você, ou seu avô embaixador
Eu tô indo carregando todos os meus
Já você? Já você veio empurrado
Eu já sei, cê não vê a minha dor
Diz: "É loucura"
"Fala muito"
"só se faz de sofredor"
"Seu aplauso ao meu sangue escorrido
Não faz de você menos racista
Só acalma o teu peito narcisista"
Sangrarei pra chegar esgotado
Exatamente onde cê partiu foi descansado
Mas mesmo lá, extenuado
Vai olhar pra mim e vai dizer:
"Olha lá, o negrinho privilegiado
Tá de carro, celular e doutorado"
Felipe Brito — 24/05/2024
---
TRACK_05 / FEZ

AQUI DE CIMA

> abrir_arquivo --faixa 05 --id aqui_de_cima
Bem no ombro do auto que voa
Me encaixo no meio fora (escolho)
Terminado e feito taboa que boia
Um pé no caminho e um passo que é solto
(bem solto) [back feminino]
Do lado aqui de dentro
Sinto além de mim me escondo do mundo
o clima até parece que copia
e se mostra calado
Nem o corre desse ar me daria alento
Leva cada um prum lado
tipo campo minado
Aqui de cima do mundo
Nem parece que cê é
o gerente, o doutor
(me respeita senhor)
Do auto dessa estima, ilusão e torpor
Ninguém vive sua vida com os olhos duzutrô
São muuitos pés .... no chão
São uns e mais alguns
Se envolve e se desfaz
[Refrão]
Aqui de cima e tudo
A terra e seu plano
Parece menos eu
nem sei se é só humano
Aqui de cima e tudo
A terra e seu plano
Nem faz tanto, sem ti
lutar é o caminho
Nocaute é sem fim
Aqui de cima, eu mudo
O ar que falta é raro
A fala cobra caro
Sua falta é fé de barro
(me respeita senhor)
Ninguém vive sua vida com os olhos nos outros
Ninguém vive sua vida
São muuitos pés .... no chão
São uns e mais alguns
Se envolve e se desfaz
uns e se desfaz
[Refrão]
Aqui de cima e tudo
A terra e seu plano
Parece menos eu
nem sei se é só humano
Aqui de cima e tudo
A terra e seu plano
Nem faz tanto sente
lutar é o caminho
Nocaute nosso fim...
nosso fim
fim...
---
TRACK_06 / FEZ

A COBRAR

> abrir_arquivo --faixa 06 --id a_cobrar
Ouvir no Spotify
Alameda zero zero noventa, esquina com
Rua DêDêDê, perto da Praça grande Bell
[speaker telephone effect sound]
Alá o medo de atender
Liga nóis sem querer atrapalhar
qualquer coisa
Cola lá
(alá que me ajude)
Liga escuta beat onde nem há
Queria falar
mas o pix nem caí
Vai atende
e me cobra
Parece que deus tá nem aí
Agora só manda grana pra bota
na lagoa pertin do iA-Pê-I
quatro quatro zero ligações não atendidas
Fora do Tom
Talvez
Mas se eu deixo
Eles fica com a mão chei de faca e queijo
Fora do som
Alá ó tô igual seu Jão, no buteco da saidera
conhaque quente
Queijo de trança e dança
sentindo falta tomando igual TOM
sem Vinícius
Tipo Claudinho sem fogueira
asa sem brasa
e avião sem bochecha
Ah eu vou atender sim
Vai espera mais um poquim
Senta e deita
ih Zé, desce uma cerveja,
que hoje a mineira vira gueixa
Vou pro pagode do samurai
Ali o filho nasce pai
Lá perto da mãe que deu a luz
Mateus que ande logo
porque fi fei não vê colo
Que o sol tá quente
E ela já só de Sombrinha, Arlindo e Cruz
Crédo, para de ligar,
nem te conheço
Claro que vai esperar
Vive cobrando uzôtro
Ligando e fazendo igual
a outra lá
Depois do sol, ela nem fala
Nem si reclamar
Nem por dó
melhor esperar Seu Zé
trazer o torresmo que o melhor que eu OVO
igual um lá afinadin
tipo eu e você sem sustenido e bemol
natural
tocando junto mesmo sem nota e nem
tempo
(tu tu tu) [telephone tom busy)
Queria falar
mas o pix nem caí
Vai atende
e me cobra
Parece que deus tá nem aí
Agora só manda grana pra bota
na lagooa pertin do iA-Pê-I
Deve ser do zero onze
As vezes é o mano do doce
Esse tem que pagar
Tem dia que só um pôte pra segurar
o bôlo e os bolêto
Calote
Só no burguês
Tio Martin já disse que o dinheiro nem vale
se ela não quiser junto se embolar
[bridge] [Break]
liii e se for o síndico? [speak suspension]
Tim tim, Saúde [brinde]
Vem bota uma pro santo que ele é tipo
Klebin, blue, brow e edy
(Culturaaa Racionaaal)
(vale tudo Gil??)
Só não vale não valer e chorar
Ben Jor também atendeu à toa
não era a dona
(Tuu tuuu tuuu)
Oi?
Que?
Claro que vai esperar
Vive cobrando uzôtro
Ligando e fazendo igual
a outra lá
Depois do sol, ela nem fala
Nem si reclamar
Nem por dó
melhor esperar Seu Zé
trazer o torresmo que o melhor que eu
nem OVO
Cada um com seus problema
Ahh é um sinal
igual um lá afinadin
tipo eu e você sem sustenido e bemol
natural
tocando junto mesmo sem nota e nem
tempo
dobradinha
primeiro segunda terça e quarto ..é dentro
tem crédito
lanterna do meu onze zero zero
nosso amor é tipo farda de advogado
segurança
e
é quente e é terno
Queria falar
mas o pix nem caí
Vai atende
e me cobra
Parece que deus tá nem aí
Agora só manda grana pra bota
na lagoa pertin do iA-Pê-I
na lagoinha pertin do iA-Pê-I...
Alá o medo de atender
Liga nóis sem querer atrapalhar
qualquer coisa
Cola lá
(alá que me ajude)
Liga escuta beat onde nem há
Queria falar
mas o pix nem caí
Vai atende
e me cobra
Parece que deus tá nem aí
Agora só manda grana pra bota
na lagoa pertin do IA-Pê-I
na lagoinha pertin...
agorinha...
---
TRACK_07 / FEZ

MOSTRE

> abrir_arquivo --faixa 07 --id mostre
Ouvir no Spotify
[Verse 1]
Eu nem sei chorar pra fora
Barraco molha, infiltra e mófa
Fungo que cresce, se alimenta
Da dor seca, fria, fôsca
Igual colônia, ifá, doce
Casca da parede racha, mostra
Tijolo, massa e ferro, podre
A dor se equilibra, dança, gira
Anda, se exibe, fita
No fio da alegria, dita
Ritmo e poesia
Triste, grita
[Pre-Chorus]
Eu queria mais tempo pra ter
Acumulado ser, sido um sofredor
Dante, inferno sem temor
Cante, unidunitê
Escolhe frio, duro
Ou ser forte?
[Sub-Chorus / Drop]
É claro que espera
Nessa poesia crua e porca
Que a rima agora fosse...
VIVA
[Chorus]
Viva
Via a vida ser mais sua
E menos do seu dono
Viva
Via a vida ser mais sua
E menos do seu dono
VIVA
[Chorus]
Viva
Via a vida ser mais sua
E menos do seu dono
Viva
Via a vida ser mais sua
E menos do seu dono
[Verse 2]
O que você tem de sorte
Talvez seja aquilo que te faça forte
É claro que espera
Que isso termine em...
Mas não
[Chorus]
Viva
Via a vida ser mais sua
Via a vida ser mais sua
E menos do seu dono
[Bridge]
Mostre
Antes de ver chegar a inevitável
Mostre a vida
E seja mais sua
Solto
Que não sabe dizer
Mostre
Mostre
Antes de ver chegar a inevitável
Mostre a vida
E seja mais sua
Solto
Que não sabe dizer
[female chorus]
Mostre
Mostre
Espero que cê fosse (mostre)
e não more em você
[female chorus]
Sólo
Ninguém pra te dizer
Corre
Às vezes cê só quer
[female chorus]
às vezes cê só quer
Só quer
Cólo
TRACK_08 / FEZ

POR UM TRIZ

> abrir_arquivo --faixa 08 --id por_um_triz
Ouvir no Spotify
Foi por um triz
Que faca se sujou
(foi por um triz)
No corte vi a dor
(Foi porque quis)
Vontade não faltou
Mas sou feliz (vai ser feliz)
Triz... é quase
Logo ali
Mas nem aí (sem mais aís)
Me falta a coragem de servir
Como um martír
Vivendo um sonho de dalí
Sem forma e sem vida que é cru e gente vil
Quem sabe que é um a mais ali
Pra ser servil
Ninguem vai saber que sua alma
É só um triz…
Um triz de angústia e feliz
É por um Triz
um triz
Eu sei que no rosto minha face
e contradiz…
Feliz e verdade
É mentira
É por um triz
Não faça
Não me faque nem me olhe
(Vai ser feliz)
estado que me guarda
essa faca na bainha
Ancóra nesse mangue
Que é doce e salobro
luta de sofrer e se fingir
É por um triz
Ter um mar aberto de poder
vivia a minha vida por um ter
É porto triste
é por um triz…
Eu sei que no rosto minha alma ainda sorri
ainda sorri
é por um triz
TRACK_09 / FEZ

ALQUIMISTA GRIOT

> abrir_arquivo --faixa 09 --id alquimista_griot
Faz o caminhar no meio, jeito de rimar
Base do boom bap é difícil não gingar
Caldo nutritivo que faz o verso ficar vivo
Alquimista velho fez atravessar
Barreira do espaço-tempo sem antecipar
Síncope do beat não permite ignorar
Cadinho de tudo, ingrediente sem faltar
Código do mundo que vai te transformar
Teoria suja que te faz sentir budah
Flow proibido vem ver é de Jah
Maica um cadinho que eu vou desembolar
Livro proibido que faz enxergar
Alquimista Griô, Alquimista Griôô
Quem me levou foi um velho louco
Sakiamune preto, diz de África e mágica de criolo
Som de cor, palavra de tom
Zero e um, terço de Ogum
Alquimista velho me contou desse lugar
Lab de preto velho, santeria e candomblé (pinga e Menciono o saber que vem da diáspora lá
Africana mente que o mundo entenderá
Milhão de dimensão, tem medo não
Verso escorre leve do compasso, vê se tá
Rima que desliza feito óleo de noz na cuia de vô
Raizeiro na feira com o saber da raiz
Moderna alquimia que a natureza traduz
Folha, casca, garrafada que seduz
Lab ancestral que o universo conduz
Quero mais tempo pra beber, investigar
Caminho permitido é mistura e solução
Cada prateleira guarda um mól de ilusão
Seu peito é só batida, poção e sensação
Alquimia negra é livro em Yorubá
Milhão de dimensão, eu nem tô nesse lugar
Tecido do espaço e a gente a costurar
Navega vetores sem pensar pra pilotar
Caminho de sentido é bemol e sustenido
Olha esse tecido feito de hora e locação
Mistura essa cor com o sabor de escutar
Alquimia ancestral, que doideira esse lugar
Alquimista Griô, Alquimista Griôô
Quem me levou foi um velho louco
Sakiamune preto, diz de África e mágica de criolo
TRACK_10 / FEZ

LAGRIMÁ — NANÃ

> abrir_arquivo --faixa 10 --id lagrima_nana
Na nãnanã nanã nanã
Chora que a terra molha
Barro que teu filho pisa é de Oxalá
Na nãna nãnanã nanã nanã, lagrimá
Na nãna nãnanã nanã nanã nanã
Ela vem e desce do altar
Salto ante salto, escorre seca
(Lágrima)
Ela é de cor, é de côrte
(Lágrima)
De nobre ela sente
Sente o vento que mira pra sorte
Gôsto de doce, de rum
De Todos os Santos e Cienfuegos
Empurra a vela do seu barco, Olorum
Sal de lágrima seca, molha lagri-mar
(Havaná)
Na vela que não lhe para-fina
Luz, farol de forte
Fogo, calor se der, pense
(Se der sorte)
Ela é de cor, é de côrte
Fina luz, farol de forte
Chora que a terra molha
Barro que teu filho pisa é de Oxalá
Na nãna nãnanã nanã nanã, lagrimá
Na nãna nãnanã nanã nanã nanã
Ela vem, sobe no alto do ar
Sem força, sem apertar
Ela é de cor-e-age
Como deveria estar
(Coragem)
A-rrainhar seu peito
Seu jeito, sua coroa, brilho e barro
Água escorre, molha, molha
O amor no olhar
Nanã, Nanã
É flor que nasce pra ver Nanã
Água e barro
(¡Brilla el guijarro!)
Alto y bajo
(Brilho — ¡qué raro!)
Água abajo, brilho e barro
Alto y bajo, Nanã, lagrimá
Chora que a terra molha
Barro que teu filho pisa é pra Oxalá
Na nãna nãnanã nanã nanã, lagrimá
Na nãna nãnanã nanã nanã, lagrimá
Na nãna nãnanã nanã nanã nanã
Na nãna nãnanã nanã nanã nanã
TRACK_11 / FEZ

YÔ / IO / RUA / IORUBÁ

> abrir_arquivo --faixa 11 --id yo_io_rua_ioruba
[INSTRUMENTAL INTRO – slow build, ritual atmosphere, minimal percussion, hand drums, shakers, deep reverb]
[Spoken call-and-response – MC cypher style, ritual tone]
Obatalá Aláàse, Bàbá òníwa pẹ̀lẹ́...
Yô… (Rua)
YÔ (Rua)
Yo (Rubá)
Io, Io, Io, Io rua, rua, rua
Yo que chama na batalha vira Io que abre a rua
Iorubá no som que soa mão levanta, corpo escuta
[Beat starts assembling – kick enters, MPC-style swing, dusty boom bap]
[VERSE 1 – walking boom bap, grounded flow]
a mão levanta e diz YÔ… Yô, Yô, ruuá
É rap preto e poesia da levada da batida
a mão pra cima yÔ yô Yô ru bá
Ritmo é partida e chegada
boom bap caminhada
dizer não e sim copada, sincopada
passo e despasso
corpo aprende no compasso
Beat marca caminhada
ponto pede respirada
rima fria sente nada
gira quem te vê parada
griô, sabedoria da história contada
[DRUM BRAKE – sudden stop, breath, ritual pause]
[INSTRUMENTAL BRIDGE – Afro-Brazilian percussion focus, trance-like]
[Call-and-response vocal textures, no full lyrics]
Io… Rua… Io… Rua…
[CHORUS / REFRAIN – chant-like, collective, ritual]
Obatalá Aláàse, Bàbá òníwa pẹ̀lẹ́
Ẹ jẹ́ kí o sọ mi di ẹni pẹ̀lẹ́
ẹni tó mọ ìwà rere
Fún mi ní àlàáfíà
ìmọ̀ràn rere
àti ìtọ́sọ́nà ní ọjọ́ mi
a mão levanta e diz YÔ… Yô, Yô, ruuá
É rap preto e poesia da levada da batida
a mão pra cima yÔ yô Yô ru bá
Ritmo é partida e chegada
boom bap caminhada
dizer não e sim copada, sincopada
passo e despasso
[VERSE 2 – griot storytelling, beat slightly stripped]
Griô é vivo, é RAPer
ponto é beat, marca a levada
o flow é santo
desde África até cada quebrada
Da roda ao asfalto
do terreiro ao concreto
som não pede licença
ele atravessa o tempo
Yo vira Io na boca
quando o corpo tá desperto
não é sample, é semente
é fundamento direto
[OUTRO – instrumental dissolve, ritual closing]
[Hand drums fade, reverb tails, ambient space]
àlàáfíà…
ìmọ̀ràn rere…
sónà ní ọjọ́ mi…
TRACK_12 / FEZ

DELEITE

> abrir_arquivo --faixa 12 --id deleite
[Dry Boom Bap, 88 BPM]
[Natural Brazilian Male Rap Voice, Mid-Low Register, Conversational Flow]
[Narrow Vocal Range, Dry Close-Mic, Clipped or Descending Endings]
[No Singing, No Vibrato, No Melisma, No Octave Jumps]
[Use Pauses and Syncopation, Never Stretch Final Words]
[Intro: Vinyl Crackle, Distant Street Noise]
[Spoken Intro, Off-Mic]
Paz de caramelo espreguiçando no meio da rua
[Beat Enters: Dry Kick, Sharp Snare, Sparse Bass]
[Verse 1: Laid-Back Spoken Rap]
Vida suja crua, curtida
Respirando arde feito peito infiltrado inflamado
Pensa em caixa-forte desencaixa igual Lego quando pisa
Vida tipo leite
[Turntable Cut: Short Male Spoken Sample]
“Ele era um preto tipo A”
[Deadpan Ad-Lib]
B, C ou UHT?
[Verse Continues: Slightly Denser Flow]
Vive essa vida de saco e corre
[Child Voice, Lo-Fi Spoken Insert]
Ô, pai um dia o hexa vem?
[Adult Voice, Dry Response]
Calma, filho só no próximo ciclo
Circo de Ninho Soleil
É tetra é Tetra Pak embale, Tino
[Short Sports-Broadcast Cut]
“Sentiu, Galvão?”
[Two-Beat Silence]
[Hook: Spoken Unison, No Melody]
Ô, saudade da era Parmalat ô, saudade da era Parmalat
Na prateleira ainda sem ter sido vendido
cresceu nasceu venceu
[Dry Cut]
morreu
[Verse 2: Steady Boom Bap Flow]
E olha que eu não sou nem Marcos nem Palmeiras
Prefiro tudo que vem antes do real
Cruzado direto e Cruzeiro
[Beat Drops Out]
[Hospital Monitor: Three Electronic Beeps]
Pii pii pii
[Low Spoken Voice]
O dois caindo e um subindo
[Turntable Cut: Agitated Male Spoken Sample]
“Mandei falar pra não arrastar não botaram fé subiram os dois, tiozinho”
[Beat Returns: Heavier Kick, Same Tempo]
[Verse 3: Cold Restrained Delivery]
Pensa e sonha como leite
frio
Se não sair da sua caixa apodrece
[Older Male Spoken Insert]
E você tem brio?
[Half-Bar Pause]
Ao contrário no leito quente
viral uma febre
Curte compartilha e não vacina
vacila
[Flow Switch: Short Percussive Phrases]
Tosse coça e rosna
Sem nenhum dente
Deleite aproveito
Nem Corega amigo?
[Beat Strips Down: Kick and Snare Only]
[Outro Verse: Calm, Almost Indifferent]
Agora na lata
cê me fala e chora
Só óleo e sardinha
Cresceu nasceu venceu
Na prateleira ainda sem ter sido vendido
[Full-Beat Stop]
morreu
[Very Short Spoken Sample]
Agora
[Second Voice, Closer]
Agorinha
[Outro: Vinyl Loop Warps and Stops]
TRACK_13 / FEZ

REMAR MARÉ

> abrir_arquivo --faixa 13 --id remar_mare
[intro]
ré-mar..maré remar mareja remar mar é
ré mar de Africa ao porto que nos salve
sal da vista que é dor e sau..dade
Verde acabo de sentir ver-te
pra nunca mais sentir teu perfume
me some no horizonte
onde o sol risca o mar
te obriga me tira
desabriga me obriga e te faz ...
[Refrain]
ré-mar..maréé remar marejaar remar mar ééé
fim do rio ,
início de tudo que é vivo meu lindo mar
fim do rio início de tudo que amar
Ré-ma e respira espera Africa
Virá de longe e aqui vais chegar
Terra de preto ser e terá
suor salga a terra de arar
nasce filho da dor e
sem ontem pra perguntar
areia branca seca quente, sem mais me lança
o peito quer seu povo seu mar
(teu povo / teu mar)
(teu povo/ teu lar))
(seu sangue / teu turvo olhar)
[sing and response in backing vocals]
[Refrain]
ré-mar..maréé remar marejaar remar mar ééé
fim do rio ,
início de tudo que é vivo meu lindo mar
fim do rio início de tudo que amar